Depressão e Deficiência: quando a luta invisível pesa mais do que a limitação física

A deficiência que todos veem e a dor que poucos percebem

Quando falamos sobre deficiência, muitas pessoas pensam apenas nas barreiras físicas, na falta de acessibilidade ou nas dificuldades de comunicação. Mas existe uma realidade que nem sempre aparece: a saúde mental.

Pessoas com deficiência convivem frequentemente com exclusão, preconceito, isolamento social e falta de oportunidades. Essas situações podem aumentar o risco de ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais.

Escrevo este texto como alguém que convive com a depressão há muitos anos.

Sou surdo, usuário de implante coclear bilateral, e ao longo da vida enfrentei situações de exclusão, bullying, dificuldades de comunicação e momentos em que me senti invisível para a sociedade.

A depressão não surgiu por causa da surdez em si. Ela foi construída por experiências dolorosas, pela falta de compreensão de muitas pessoas e por desafios emocionais acumulados ao longo da vida.

A relação entre deficiência e saúde mental

Diversos estudos mostram que pessoas com deficiência podem apresentar maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental devido a fatores como:

  • Exclusão social;
  • Barreiras de comunicação;
  • Discriminação;
  • Menores oportunidades de trabalho;
  • Solidão e isolamento;
  • Falta de acessibilidade em serviços de saúde.

Isso não significa que toda pessoa com deficiência terá depressão. Significa apenas que muitas enfrentam desafios adicionais que podem afetar seu bem-estar emocional.

O preconceito também adoece

Muitas vezes, a maior dificuldade não é a deficiência.

É a forma como a sociedade reage a ela.

Quando uma pessoa é ignorada, subestimada ou tratada como incapaz durante anos, isso pode deixar marcas profundas na autoestima e na saúde emocional.

Buscar ajuda é um ato de coragem

Durante minha caminhada, encontrei apoio na terapia, no acompanhamento psiquiátrico, na fé, nos amigos, na atividade física e em pessoas que acreditaram em mim.

Ainda existem dias difíceis. Ainda existem desafios.

Mas aprendi que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um passo importante para continuar seguindo em frente.

Uma mensagem para quem está passando por isso

Se você é uma pessoa com deficiência e enfrenta a depressão ou outros problemas emocionais, saiba que sua dor merece atenção e respeito.

Você não precisa enfrentar tudo sozinho.

Buscar apoio profissional, conversar com pessoas de confiança e cuidar da sua saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física.

“Sou surdo, convivo com a depressão há muitos anos e continuo acreditando que falar sobre saúde mental pode salvar vidas. Por isso compartilho minha história.”

Acessibilidade na Justiça Eleitoral: impressões de quem participou do encontro do TSE

No dia 29 de abril de 2026, tive a oportunidade de participar, em Brasília, do Encontro de Acessibilidade e Inclusão promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O convite foi recebido por meio do meu e-mail institucional dos Correios, o que tornou essa experiência ainda mais significativa. Participei como servidor público, pessoa surda, usuário de implante coclear bilateral, bilíngue em português e Libras, e profissional que atua há anos na área de inclusão e acessibilidade.

O objetivo do encontro foi reunir representantes da Justiça Eleitoral de todo o país, especialistas, coordenadores de acessibilidade, pessoas com deficiência e demais participantes para discutir avanços, desafios e perspectivas para uma Justiça Eleitoral mais acessível e inclusiva.

Desde o início, ficou evidente que o tema vem recebendo atenção crescente dentro da Justiça Eleitoral. Representantes de diversos Tribunais Regionais Eleitorais apresentaram projetos, compartilharam experiências e demonstraram como cada estado vem buscando ampliar a acessibilidade para os eleitores com deficiência.

Foi interessante perceber que muitos desafios são comuns em diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, também foi possível conhecer iniciativas criativas e soluções que vêm produzindo resultados positivos.

Embora o conteúdo tenha sido bastante rico, alguns aspectos da organização chamaram minha atenção.

O evento apresentou certa desorganização estrutural. Havia qté mesmo poucas cadeiras para a quantidade de participantes presentes, fazendo com que muitas pessoas permanecessem em pé durante parte da programação. Considerando que o tema central do encontro era justamente acessibilidade e inclusão, esse foi um ponto que poderia ter recebido maior atenção.

Ao longo do dia, porém, a dinâmica foi melhorando e a programação da tarde transcorreu de forma mais organizada.

Os painéis abordaram diferentes aspectos da acessibilidade eleitoral. Foram discutidos desafios enfrentados por pessoas com deficiência, projetos desenvolvidos pelos tribunais regionais, iniciativas voltadas ao futuro das eleições e estratégias para ampliar a participação cidadã.

Um dos temas que mais me chamou a atenção foi a preocupação com pessoas com deficiência que demandam níveis mais elevados de apoio para exercer seus direitos. Essa discussão demonstra que a acessibilidade precisa ser pensada de forma ampla, contemplando diferentes realidades e necessidades.

Outro aspecto apresentado foi o uso de centrais de atendimento em Libras para apoiar eleitores surdos. A proposta prevê mecanismos que permitam ao eleitor acessar atendimento especializado quando necessário.

Sem dúvida, trata-se de um avanço importante.

No entanto, as discussões também reforçaram algo que eu já observava há bastante tempo: ainda existe uma distância entre as soluções planejadas e a participação efetiva das próprias pessoas com deficiência na construção dessas soluções.

Durante os debates, tive a oportunidade de fazer perguntas relacionadas justamente a esse tema.

Questionei como as pessoas com deficiência estão participando da elaboração das políticas, projetos e iniciativas de acessibilidade. Afinal, existe uma diferença significativa entre desenvolver soluções para pessoas com deficiência e desenvolver soluções com pessoas com deficiência.

Essa reflexão foi reforçada em diferentes momentos do encontro.

Na minha visão, a inclusão verdadeira acontece quando as pessoas com deficiência participam desde a concepção das ideias, passando pelo planejamento, desenvolvimento, implementação e avaliação dos projetos. Não apenas quando são convidadas a testar algo já pronto.

A experiência de quem vive diariamente as barreiras é um conhecimento valioso que não pode ser ignorado.

Outro ponto que considero importante registrar refere-se à acessibilidade em Libras oferecida durante o próprio evento.

Como participante surdo, tive dificuldades significativas para acompanhar parte do conteúdo apresentado. A qualidade da interpretação em Libras comprometeu bastante o entendimento de diversos momentos da programação.

Essa percepção não foi apenas minha. Outros participantes surdos também relataram dificuldades semelhantes.

A acessibilidade não pode ser compreendida apenas como a presença formal de um recurso. A qualidade desse recurso é fundamental para garantir participação efetiva.

Quando a interpretação não atende adequadamente às necessidades do público, a consequência é a perda de informações, a redução da participação e, em muitos casos, a exclusão da pessoa surda dos debates.

Por isso, considero essencial que eventos futuros contem com critérios rigorosos na contratação e avaliação dos serviços de interpretação em Libras, garantindo profissionais devidamente qualificados para atuar em encontros dessa relevância.

Apesar das observações e críticas, saí do evento com uma avaliação positiva.

O Tribunal Superior Eleitoral tem demonstrado um compromisso crescente com a pauta da acessibilidade e da inclusão. A realização de um encontro nacional dedicado ao tema, reunindo representantes de todo o país, já representa um passo importante.

Ao mesmo tempo, acredito que o próximo avanço precisa ser ainda mais consistente: ampliar a participação direta das pessoas com deficiência na construção das soluções que impactam suas vidas.

A acessibilidade não deve ser construída apenas para as pessoas com deficiência.

Ela deve ser construída com elas.

Essa foi, sem dúvida, a principal reflexão que trouxe comigo dessa experiência em Brasília.

Surdez e música em Libras: inclusão não é espetáculo

Existe uma narrativa muito difundida de que a música em Libras representa o auge da inclusão. Vídeos viralizam. Plateias se emocionam. Comentários dizem: “Agora os surdos podem sentir a música.”

E eu fico feliz, sim, ao ver que a Libras ganha cada vez mais espaço e visibilidade. Isso é avanço. Isso é conquista.

Mas é importante dizer com clareza: muitas dessas falas partem de uma lógica específica: a lógica ouvinte.

Eu sou surdo. Nasci ouvinte e perdi a audição ao longo da vida. Sempre tive uma relação muito boa com música. Depois do implante coclear, estou retomando isso aos poucos, me adaptando novamente aos sons, às vozes, às melodias, reconhecendo experiências antigas de uma forma diferente.

Eu gosto de música.
Gosto de show.
Gosto de estar onde as coisas estão acontecendo.
Gosto de estar onde me sinto bem-vindo, onde percebo que o evento também foi pensado para mim.

Mas também gosto de teatro, museu, exposições, palestras, encontros culturais, debates. Eu gosto de cultura. Eu gosto de presença. E em todos esses espaços eu preciso de acessibilidade em Libras.

O ponto aqui não é desvalorizar a música em Libras. Ela é importante. Intérprete no palco é direito linguístico. A acessibilidade precisa existir. A questão é outra: a romantização.

Pesquisadores como Paddy Ladd defendem que a cultura surda deve ser compreendida a partir de sua própria perspectiva linguística e visual, não a partir de parâmetros ouvintes. Quando a experiência sonora é colocada como centro universal da cultura, estamos adotando um padrão que não contempla toda a diversidade humana.

A ideia de que “música é universal” costuma nascer da experiência de quem ouve.

Para muitas pessoas surdas, quando há envolvimento com música, essa experiência acontece de outra forma: pela vibração no corpo, pelo ritmo visual, pelo movimento, pela energia do ambiente, pelo contexto social do evento. Não é necessariamente a melodia que emociona. Não é a harmonia que define a experiência.

E para algumas pessoas surdas, a música simplesmente não ocupa esse lugar central. E está tudo bem.

A literatura na área de Estudos Surdos mostra que a vivência musical entre pessoas surdas é heterogênea. Não existe um padrão. Não existe uma regra. Não existe uma obrigação cultural de amar música.

O problema não é ter intérprete em show.
O problema é quando isso vira espetáculo.

Quando a interpretação é pensada mais para impactar o público ouvinte do que para garantir compreensão.
Quando há exagero performático para gerar emoção.
Quando a Libras vira atração paralela.

A Libras não é efeito especial.
É língua.

Acessibilidade não deve servir para produzir comoção. Deve servir para garantir participação.

Em 2021, eu participei de uma bate papo acessível em Libras, na foto a intérprete Sarah Melgaço.

O surdo não quer ser plateia de um show sobre sua própria língua.
Ele quer estar incluído de verdade.

Quer entender.
Quer participar.
Quer circular no espaço com autonomia.
Quer sentir que pertence.

A cultura surda é muito maior do que música. Ela envolve identidade, comunidade, língua, história, pertencimento.

Existe surdo que ama música? Sim.
Existe surdo músico? Sim.
Existe surdo que não se conecta com música? Também.

A experiência não é uniforme.

Eu gosto de música. Mas o que define minha vivência cultural não é a música em si.

É poder estar presente com acessibilidade real.

Acessibilidade é direito.
Os intérpretes precisam estar lá.
A Libras precisa ocupar espaço.

Mas é preciso consciência.

O público surdo não quer espetáculo e nem vulgarização da própria língua.
Quer inclusão.
Quer respeito.
Quer pertencimento.

Inclusão não é performance.
É responsabilidade.

Thiago Perné Santos
Especialista em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão
23 de março de 2026


Diário de um surdo – 021: Eu estava bem. E de repente não estava mais.

É estranho falar isso.

Porque tem fases em que eu realmente estou bem.
Durmo melhor. Trabalho focado. Me sinto útil. Consigo rir de verdade.
Faço planos. Me organizo. Acredito.

E aí eu penso:
“Agora vai. Agora estabilizou.”

Só que a depressão não é linha reta.

Ela é onda.

Tem dia que eu acordo mal.
Sem motivo claro.
Sem notícia ruim.
Sem tragédia acontecendo.

Só um peso.

E o que mais machuca não é a tristeza em si.
É a frustração.

Porque eu passei um longo período bem.
Até meses funcionando.
Meses me sentindo forte.

E quando a oscilação vem, parece que eu voltei várias casas no jogo.

Vem aquele pensamento silencioso:
“De novo?”

A expectativa é traiçoeira.
Quando a gente fica muito tempo bem, começa a acreditar que acabou.
Que venceu.
Que superou de vez.

Mas depressão não é assim.

Ela não é falta de fé.
Não é ingratidão.
Não é drama.

É uma condição que oscila.

Tem dias que eu me sinto firme.
Tem dias que eu me sinto quebrado.
E o mais difícil é aceitar que os dois fazem parte de mim.

Eu ainda faço terapia.
Ainda tomo medicação.
Ainda oro.
Ainda tento manter rotina.
Ainda luto.

Mas tem dias que dói.

E talvez amadurecer seja isso: entender que estar mal de novo não significa que todo o tempo bom foi mentira.

Não foi.

Eu fui feliz.
Eu fui produtivo.
Eu fui leve.

E agora estou atravessando uma fase outra fase.

Quero e tento acreditar que isso não apaga o que já construí.

Talvez vencer, pra mim, não seja nunca mais oscilar.
Talvez seja continuar aqui.
Mesmo quando o humor muda.
Mesmo quando a vontade diminui.
Mesmo quando a expectativa quebra.

Eu ainda estou aqui.

E hoje, isso já é muito.

A inovação promovendo a inclusão de verdade

A tecnologia está cada vez mais presente na nossa rotina. Ela conecta pessoas, facilita tarefas e amplia possibilidades. Mas quando pensada com acessibilidade, ela vai além da praticidade: se torna uma grande aliada da inclusão.

Recursos tecnológicos acessíveis ajudam pessoas com diferentes necessidades, contextos e formas de interação a participarem da sociedade com mais autonomia, conforto e segurança.

E o mais importante: acessibilidade não beneficia apenas um grupo específico. Ela melhora a experiência de todos.

A tecnologia tem um papel fundamental na promoção da autonomia, da dignidade e da participação social das pessoas com deficiência. Quando pensada com acessibilidade desde o início, ela deixa de ser um “extra” e passa a ser um direito garantido.

Hoje, existem soluções tecnológicas que transformam a forma como pessoas com deficiência estudam, trabalham, se comunicam, se locomovem e acessam serviços.

Neste post, eu mostro pra vocês as principais tecnologias voltadas para diferentes tipos de deficiência e entender por que acessibilidade tecnológica é inclusão na prática.

Ferramentas como:

  • legendas automáticas em vídeos,
  • transcrição de voz em tempo real,
  • tradução de conteúdos em diferentes formatos,

tornam a comunicação mais clara, democrática e acessível.

Esses recursos ajudam em reuniões, atendimentos, estudos, consumo de conteúdo e até em situações do dia a dia, como pedir uma informação ou acompanhar uma apresentação.

Hoje, acessar informação não deveria ser um privilégio.
Ferramentas como leitores de tela, ajustes de contraste, aumento de fonte, descrição de imagens e navegação simplificada permitem que mais pessoas consumam conteúdos digitais com autonomia.

Quando sites, aplicativos e sistemas são pensados com acessibilidade desde o início, eles se tornam:

  • mais fáceis de usar,
  • mais intuitivos,
  • mais eficientes para todos os públicos.

A automação e os assistentes virtuais são exemplos claros de como a tecnologia pode apoiar a rotina:

  • controle de luzes e aparelhos por voz,
  • lembretes inteligentes,
  • organização de tarefas,
  • personalização de dispositivos conforme a necessidade de cada pessoa.

Tudo isso contribui para mais independência e qualidade de vida, seja em casa, no trabalho ou em espaços públicos.


Acessibilidade tecnológica é um compromisso coletivo

Organizações como a Organização Mundial da Saúde reforçam que grande parte da população mundial se beneficia diretamente de ambientes, produtos e serviços acessíveis — mesmo sem perceber.

Seguir boas práticas de acessibilidade digital, como as diretrizes da WCAG, não é apenas cumprir normas, mas demonstrar respeito à diversidade humana.

A tecnologia tem um enorme potencial de transformação social.
Quando usada com consciência e planejamento, ela:

  • reduz barreiras,
  • aproxima pessoas,
  • promove igualdade de oportunidades.

Mais do que inovação, acessibilidade é sobre pertencimento.
E uma tecnologia verdadeiramente moderna é aquela que não deixa ninguém de fora.

Sou pós-graduado em Inclusão e Acessibilidade e atuo com foco em acessibilidade, diversidade e inclusão, ajudando pessoas, empresas e instituições a compreenderem que inclusão não é apenas discurso, mas prática diária.

A tecnologia, quando bem aplicada, é uma grande aliada nesse processo — e meu trabalho é justamente apoiar essa construção de forma consciente, responsável e acessível.

Podem contar comigo para consultoria, palestras e orientações sobre acessibilidade, inclusão e uso da tecnologia como ferramenta de transformação social.

contato@blogdospernes.com.br

Diário de um surdo – 020: Não é bandeira

Nos últimos dias, fiquei pensando sobre uma coisa que volta e meia alguém comenta comigo:
“Você se posiciona demais”,
“Parece ativismo”,
“Cuidado com o que posta”.

E eu sempre fico com aquela sensação estranha, como se estivessem falando de uma pessoa que eu não sou, já que me ofende

Então resolvi escrever aqui, no meu espaço, pra deixar algo claro:

o que eu faço aqui não é militância. É só a minha história.

Eu não defendo bandeiras.
Eu não convoco ninguém.
Eu não faço campanha.
Eu não luto contra o sistema.

Eu falo de mim.
Da minha vida como pessoa com deficiência.
Das coisas que vivi, das coisas que aprendi e das coisas que ainda estou tentando entender.

Se isso toca alguém, ótimo.
Se isso ajuda alguém, melhor ainda.
Mas não é esse o objetivo.
Não é uma missão pública.
Não é “uma causa”.
É só o registro da minha caminhada.

A inclusão aparece aqui como consequência, não como propósito.
Aparece porque faz parte da minha rotina, do que eu enfrento e do que eu observo.
É impossível não falar disso quando isso me atravessa desde a infância.

Mas não é porque eu conto o que vivi
que eu estou “levantando bandeira”.

Eu não estou tentando mudar o mundo pela força, pela política ou por movimentos sociais.
Essas coisas não fazem parte da minha fé, da minha visão de futuro, nem da forma como enxergo a vida.

O que eu faço é simples demais pra esse rótulo pesado:
eu registro. Eu divido. Eu explico minha própria experiência.

E isso já é difícil o bastante.

Escrever sobre o que me machucou, sobre o que ainda machuca, sobre o que me formou — isso exige coragem, não engajamento.

E se alguém for tocado por isso, é porque histórias verdadeiras têm efeito.
Não porque eu estou tentando “fazer ativismo”.


No fim das contas, meu blog não é um manifesto.
É um diário público.
Um lugar onde eu coloco pedaços de mim que, por muitos anos, eu escondi.

Se isso parece posicionamento pra alguém, tudo bem.
Mas pra mim, é só viver a minha vida com sinceridade.

E isso não tem bandeira nenhuma.

Qual é o som do silêncio?

Você já parou pra pensar qual é o som do silêncio?


Muita gente vê o silêncio como ausência, como um vazio. Mas pra mim, ele é cheio de vida. Cheio de histórias, de olhares, de gestos e de sentimentos que não precisam de som pra existirem.K

Foto: Kristina Flour

A surdez me ensinou que o silêncio fala — e fala muito.
Ele fala quando alguém te olha com atenção, quando um gesto diz mais do que mil palavras, quando o mundo desacelera e você consegue, enfim, perceber o que realmente importa.

No começo, o silêncio pode assustar. É como se o mundo ficasse distante. Mas, com o tempo, eu entendi que ele também acolhe, ensina e aproxima. Aprendi que o silêncio tem ritmo, tem pausas e tem força. Ele é pausa e presença ao mesmo tempo.

Nem todo silêncio é solidão.
Às vezes, ele é um abraço que não precisa de som pra ser sentido.
É um espaço de paz, reflexão e escuta — uma escuta diferente, feita com o coração.

E é sobre isso que eu falo no meu livro: sobre as lições que aprendi entre o som e o silêncio.
Sobre o valor da empatia, da escuta verdadeira e da inclusão que nasce quando a gente começa a enxergar o mundo com outros sentidos.

Essas e outras reflexões estão no meu livro — um convite pra sentir, refletir e descobrir o poder do silêncio.

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Diário de um surdo – 019: espaços conquistados

Durante muito tempo, as pessoas surdas viveram à margem, sem espaço para mostrar suas capacidades e sonhos. A sociedade parecia não ouvir — nem no sentido literal, nem no simbólico. As portas se fechavam, e a falta de comunicação virava um muro difícil de ultrapassar. Mas, aos poucos, isso começou a mudar. E essa mudança, por menor que pareça em alguns momentos, é profundamente significativa.

Hoje, ao olhar para os espaços conquistados, há um sentimento misto de orgulho e responsabilidade. Orgulho por ver pessoas surdas em lugares que antes pareciam inalcançáveis — nas universidades, nos serviços públicos, nas empresas, na cultura, nas redes sociais. Responsabilidade, porque cada conquista vem acompanhada da consciência de que ainda há muitos outros espaços a serem abertos.

Imagem: Reprodução

As vitórias podem parecer pequenas aos olhos de quem não vive essa realidade. Um intérprete em uma reunião, uma legenda em um vídeo, um curso de Libras oferecido em uma empresa — são gestos simples, mas que representam algo enorme: o reconhecimento de que pessoas surdas existem, têm voz e pertencem a todos os lugares.

Ver a comunidade surda ganhando visibilidade é algo que emociona. É perceber que a luta de tantas pessoas — muitas delas anônimas — está dando frutos. É entender que o esforço coletivo não foi em vão. Cada espaço conquistado carrega uma história de superação, de resistência e, principalmente, de fé na possibilidade de mudança.

É impossível não sentir algo profundo ao presenciar essas transformações. O sentimento é de gratidão, mas também de esperança. Gratidão por tudo que já foi alcançado, e esperança de que o que ainda falta será conquistado com o mesmo espírito de luta que sempre guiou a comunidade surda.

Essas conquistas mostram que a inclusão não é um presente, mas um direito que vem sendo reafirmado com muito esforço. E cada vez que um surdo é visto, ouvido e respeitado, a sociedade inteira dá um passo à frente.

O que antes era invisível, agora começa a ser reconhecido. E isso, para quem viveu a exclusão, é algo que não se esquece — é a prova de que o silêncio pode, sim, ser transformado em voz.

Meu novo desejo realizado: Mini Mic 2+

Às vezes, a vida nos dá pequenas alegrias que parecem simples, mas que fazem toda a diferença no nosso dia a dia. Para quem depende de um implante coclear, cada avanço tecnológico é muito mais que um gadget: é oportunidade de ouvir melhor, participar mais e se sentir incluído.

Ontem, meu Mini Mic 2+ chegou, e eu estava super ansioso para testá-lo. Hoje finalmente consegui fazê-lo funcionar, e a felicidade foi imediata!

Imagem: Reprodução

Quem tem implante coclear sabe: ouvir melhor depende não só do processador, mas também dos acessórios certos. O Mini Mic 2+ é pequeno, discreto e super eficiente. Ele capta sons de pessoas distantes, reuniões ou até no carro, transmitindo diretamente para o meu implante coclear Nucleus 7. Para mim, que já dependo do implante para participar da vida cotidiana, essa ferramenta faz uma diferença enorme.

Mais do que tecnologia, é inclusão. Cada vez que consigo ouvir algo que antes me escapava, sinto que posso estar mais presente e conectado — seja no trabalho, em família ou com amigos. É incrível perceber como o Mini Mic 2+ potencializa o que meu implante já me proporciona.

Se você também tem implante coclear ou conhece alguém que tem, vale a pena conhecer o Mini Mic 2+. Ele não é só um acessório, é uma ponte para ouvir o mundo com mais clareza e viver com mais autonomia.

Intérprete de Libras: muito além da tradução

Muita gente ainda acha que o intérprete de Libras é só alguém que “traduz” o que outra pessoa fala. Mas a verdade é que o trabalho vai muito além disso. O intérprete é um elo entre duas línguas e duas culturas diferentes: a Libras e o português. Ele é quem torna possível a comunicação entre pessoas surdas e ouvintes, com respeito e fidelidade às duas partes.

Ser intérprete não é apenas saber sinais. É entender o contexto, o tom, a emoção e a intenção de quem fala. É ajustar o ritmo, escolher a melhor forma de expressar uma ideia e, muitas vezes, tomar decisões rápidas para que a mensagem não se perca.

Cada situação é um desafio diferente. Interpretar uma palestra não é o mesmo que interpretar uma entrevista, uma aula ou uma peça de teatro. O intérprete precisa estudar o tema, se preparar e se adaptar. Além disso, ele segue um código de ética que envolve confidencialidade, imparcialidade e respeito às pessoas envolvidas.

O trabalho do intérprete de Libras é essencial para garantir acessibilidade comunicacional. É ele quem permite que pessoas surdas participem de eventos, reuniões, aulas e momentos importantes da vida. Mas, muitas vezes, esse profissional ainda é invisível aos olhos de quem não precisa dele.

Reconhecer o valor do intérprete é também reconhecer o direito das pessoas surdas à comunicação plena. Inclusão de verdade não é ter um intérprete “só pra cumprir exigência”. É entender que sem ele, a conversa simplesmente não acontece.

Como pessoa surda, eu sei o que significa estar em um lugar com e sem intérprete. Quando tem, a sensação é de pertencimento. É poder acompanhar, entender, rir junto, participar de verdade. Quando não tem, é o contrário: a gente se sente isolado, perdido, fora da conversa. Não é só falta de informação — é falta de presença.

A presença do intérprete não é um favor, é um direito garantido por lei. A Lei nº 10.436/2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão, e o Decreto nº 5.626/2005 obriga o poder público e instituições a garantir acessibilidade por meio de intérpretes, especialmente em escolas, serviços públicos e eventos oficiais.

Mesmo assim, ainda vemos muitos espaços que ignoram essa obrigação. Por isso, é importante cobrar das autoridades o cumprimento desses direitos. Garantir intérpretes onde há surdos é garantir igualdade de acesso, respeito e cidadania.

Porque inclusão não se pede por gentileza — se exige por direito.