Diário de um Surdo – 016: O som e o silêncio

Você já sentiu aquele cansaço que não é físico, mas parece que pesa no corpo inteiro? Pois é… O cansaço auditivo faz isso comigo.

Depois que fiz o implante coclear, minha relação com o som mudou completamente. Antes, o silêncio era meu companheiro constante. Agora, o mundo é barulhento… e, às vezes, ele me esgota.

Imagem: Reprodução

Já teve dias em que cheguei em casa e só queria desligar tudo. E eu realmente posso fazer isso. Posso tirar o processador e voltar ao silêncio absoluto. Parece um privilégio, né? Mas nem sempre é. Porque o silêncio também tem seu peso.

Mas, afinal, o que é esse cansaço auditivo?

Imagina um celular rodando vários aplicativos pesados ao mesmo tempo. O processador esquenta, a bateria vai pro espaço e, se você não der uma pausa, ele trava.

Comigo, é tipo isso. O implante me permite ouvir, mas meu cérebro precisa interpretar esses sons o tempo todo. Isso exige esforço. Agora, soma isso ao barulho do trânsito, música alta, várias pessoas falando ao mesmo tempo… É como se minha mente ficasse em sobrecarga. E, cara, às vezes isso dói. Não é uma dor física, mas uma exaustão mental que me deixa sem energia até pra conversar.

E quando ninguém entende?

O pior é quando as pessoas não percebem. Já ouvi coisas do tipo:

🗣️ “Nossa, mas agora você escuta, né?”
🗣️ “Você tá cansado de quê?”
🗣️ “Mas você tá de aparelho, não é só aumentar o volume?”

E eu fico tipo… respira, Thiago, respira. O implante não é um fone mágico que transforma tudo em áudio perfeito. Ele me ajuda muito, mas tem dias em que eu preciso de um respiro.

Como ajudar alguém que passa por isso?

Se você conhece alguém com implante ou aparelho auditivo, aqui vão algumas dicas:

Entenda que cansaço auditivo existe! Se a pessoa diz que está exausta, respeite.
✅ Dê espaço para pausas. Às vezes, um tempo no silêncio faz toda diferença.
✅ Se for conversar, fale de frente, sem gritar. O esforço pra entender já é grande.
✅ Não force a barra. Se a pessoa quiser ficar quieta, tá tudo bem.

E se você também passa por isso, me conta nos comentários: como você lida com o cansaço auditivo? O que te ajuda a recarregar as energias?

Diário do Perné – 006: Os surdos e a violência psicológica

Se comunicar é fundamental, seja em casa, no trabalho ou na escola. E todo mundo em algum momento precisa de algum tipo de comunicação para viver. Não concordam?

E hoje quero contar que negar qualquer tipo de comunicação é uma forma de violência, e quero registrar que os surdos diariamente são violentadoss quando lhes é negado a comunicação. Vale lembrar que violência não só marcada pela imposição física de uma vontade alheia, mas também por uma violência psíquica. Sim, já falei em postagens anteriores né?


Reprodução/Guto Muniz
Direitos de autor: © Guto Muniz 2009

Então, negar um interprete de Libras aos surdos, também é um tipo de violência.
E não é de hoje que devemos dizer não ao isolamento, a rejeição e a proibição de se comunicar.

Violência é crime, é antiquado e está ultrapassada. Que tenhamos forças, pois eu mesmo, estou e continuo em frangalhos, pois um simples pedido de ajuda pra me comunicar melhor é negado no meu trabalho. Não reconhecem que preciso ser tratado igual, e só assim poderei fazer parte da empresa, me sentir útil e e de fato importante, e não somente um número na lei de cotas.

Desejo um mundo mais amoroso e justo para todos os surdos, afinal não devemos ceder a violência, e nem aos nossos direitos. Viva as diferenças, mas não esqueçamos que todos são humanos. Viva a acessibilidade, mas não esqueçamos de cobra-la quando vemos injustiças.

Diário do Perné – 003: A Falta de acessibilidade no Hospital

Dor de garganta, constrangimento e revolta foram alguns dos sintomas que tive recentemente. As dores de gargantas estavam frequentes e muito fortes nos últimos dias, tanto é que precisei ir para o Pronto Socorro.

Necessidade e lei: Profissionais que possam atender os surdos em Libras.
Imagem: Reprodução/ Jorge Viana

Assim que cheguei me identifiquei como surdo e deixei claro que o único sintoma que tinha era a dor de garganta. A médica foi muito gentil a medida do possível, e respeito muito os anos de formação e dedicação pela medicina, mas no final no relatório médico ela colocou que além da dor de garganta eu estava com diarreia e vômitos a 5 dias.

Sim falha na comunicação e falta de empatia e sensibilidade ao atender os surdos. Chato né? Fiquei triste e naquele momento percebi a falta de noção de hospitais que não cuidam nem orientam sua equipe para atender os surdos corretamente. Além disso, as faculdades que não ensinam seus alunos, futuros profissionais da saúde, a compaixão e a necessidade de cuidar de seus pacientes surdos e serem acessíveis.

Até quando?